sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Capitulo 2 - 2.705 batidas

Os raios do Sol batendo em seu rosto ao lado de um leve vento que entra por uma janela sem vidro o fazem desperta de um sono bem dormido, ele se sente bem até perceber que não está em sua casa. Estava dormindo sobre um tapete costurado de pequenas almofadas cada uma delas com um desenho de um animal. O quarto de paredes brancas de tinta gasta, a janela é apenas um buraco circular na parede para o lado de fora. André tenta se localizar e vai até a janela, o que vê é um extenso gramado que se junta ao céu azul no horizonte, sem nenhuma montanha e sem nenhuma árvore. A paisagem parece terrivelmente artificial e ao mesmo tempo real demais.

O pavor passa a tomar conta de seu ser, até ele ver uma porta que o faz sair correndo por ela, segue um curto corredor até uma escada que o leva ao andar térreo da casa, onde ele se depara com a menina que havia encontrado na sua cozinha.

- Acordou bem? Espero que se sinta bem acomodado, faz muitas voltas de Sol que não uso esta casa, embora tenha cuidado constantemente do jardim de grama...
- Quem é você ?!
- Eu sou Auia, já disse isto antes.
- Onde estou?
- Você está em minhas terras. Eu sou a senhora das terras do sul e deusa dos ventos... Assim me chamam.
- Merda, eu não estou para brincadeiras...

Auia fica um pouco surpresa com o tom ameaçador de André, mas nem um pouco intimidada, ela levanta-se de seu sofá ricamente decorado e caminha até ele.

_ Gente como você já se ajoelhou diante de mim antes, acho que você deve saber logo quem eu sou e onde está, para que possamos continuar o processo. Sente-se nesta poltrona.

Sem mesmo o que fazer André obedece, enquanto Auia volta para seu sofá e começa a falar:

- Você esta nas terras que pertenceram ao seu povo há muito tempo atrás, as terras do sul, você está num dia bem distante do seu, muitas voltas de Sol depois do dia que te peguei.

Percebendo que as coisas não parecem ser realmente dentro da realidade, André e querendo entender onde realmente está e como chegou ele pergunta tentando parecer mais calmo:

- E isso é quanto tempo?
- Quando visitei sua gente eles tinham este conceito, mas não sei definir tempo, só sei que para te achar voltei no tempo contando as batidas de meu coração, que foram duas mil setecentos e cinco viajando no espaço sem tempo. Talvez o Imperador da Lua saberá responder isso, se ele quiser falar com você.
- Você disse que me escolheu, por que?
- Naquele dia você iria morrer devido a um choque com aquela carroça ou carro de metal. Foi sorte achar alguém como você e principalmente não necessário ao seu mundo.
- Não necessário?
- Sua falta não fará nem bem e nem mal para a humanidade... Vejo que ainda tem dúvidas, então me siga!
Auia se levanta e caminha em direção a porta de saída, e André a segue até o lado de fora, quando Auia para e diz:

- Fique perto de mim.

Então ela levanta os braços e logo André sente se afastando do chão, pois agora ele está voando ao lado de Auia. Ele fica pensando se é sonho ou realidade, mas vê que tudo que se passa é real demais. O jardim de grama só vai a uma direção no que parece ser uma estreita faixa de terra, pois a maior parte da regi¿o ¿ de extensas florestas e podem-se ver montanhas no horizonte, na direção em que voam, logo ao se aproximar de montanhas a velocidade do vôo é reduzida, e os dois começam a se aproximar do chão.
Descem diante de um imenso portão de metal que fecha uma grande entrada na caverna. No portão tem uma frase escrita em latim e mais cinco idiomas "A herança de nossa civilização".
Com um gesto de Auia o imenso portão de ferro se abre. E os dois avançam para o interior da caverna, passam por um longo corredor com algumas estátuas de estilo romano, ele reconhece o busto do imperador Trajano no caminho, no fim do corredor André vê que está diante de um grande museu. Carros da década de 20, modelos contemporâneos a sua época, até chegar a uns mais futuristas. Todos são protegidos individualmente por uma grande caixa de vidro muito transparente, que em diferentes tamanhos parece se usado para proteger tudo, quadros, computadores de várias épocas. O vidro parecia repelir a poeira. E nele é fixado a inscrições sobre cada objeto. A galeria de quadros estava impecável, parece que houve um grande esforço para que tudo fosse preservado por anos, com se soubesse com bastante antecedência que uma calamidade aproximava-se. Revistas em quadrinhos, originais de vários artistas e todos os tipos de aparelhos domésticos decoravam os vários salões do museu. O passeio acaba na biblioteca, onde há livros feitos de um material estranho, provavelmente duráveis também.
André ainda querendo acordar de um pesadelo pergunta:

- O quê houve com o mundo?
- Houve fogo no céu e guerras na Terra, por todo canto barulhos do trovão, e os homens de sangue morreram, pois seu sangue havia sido envenenado. Uma a uma suas grandes cidades apagavam, um a um seus povos morriam... Isso foi me dito para mim por uma pequena como eu agora, depois ela ficou grande como você e morreu. Depois descobri que é comum homens de sangue morrerem assim.

- "Homens de sangue"?
- São homens iguais a você.
- Onde estão eles agora?
- Nas terras do Deus da água na direção do nascer do Sol depois do oceano. Mas ele só quer os homens de sangue para ele.

André movido por uma estranha curiosidade pergunta:
- Posso conhecer esses "homens de sangue"?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Capitulo 1 - Você estava dormindo

Ela está sentada no alto de um morro contemplando as ruínas de uma grande cidade. Todos seus sonhos, desejos e ambições não exitem mais. Pois sua civilização acabou, não há nada, seu ouro não tem valor, suas escrituras se perderão.

Só ficou Auia.

Na ultima sexta-feira de novembro caia uma chuva fina sobre o bairro de Botafogo, havia sinal que uma chuva bem mais forte se aproximava, a praia sob o céu cinza, os passos apressados impressionam uma ilustre visitante, que sem se importar com a chuva ou com o frio, fica em pé na areia da praia de Botafogo olhando os prédios. Porém uma janela de um prédio é o foco de sua atenção.

André está cansado o trabalho hoje foi particularmente estressante. Em seus quarenta anos de idade completos há dois dias com uma singela comemoração de bar com dois amigos, Samuel o judeu protestante e Henrique o intelectual de churrasco e professor de história nas horas vagas.

André ri sozinho na sala quando lembra dos diálogos que teve com os amigos:

_ Então quarenta anos vai casar de novo?
_ Tive dois casamentos e duas facadas nas costas quero terminar minha vida sem surpresas.
_ Mas como bom brasileiro você deve casar mais uma vez.
_ Por que?
_ Você já casou com uma branca e com uma negra, falta agora se casar com uma índia.

Baixando a cabeça André resmunga com um sorriso:

_ Por que eu fui perguntar?


Saindo do prédio André procura andar rápido está sem guarda-chuva e a garagem fica no outro quarteirão. Ao atravessar a rua vê uma menina de pele parda e cabelos avermelhados o fitando, mas não dá muita atenção e continua a andar. Porém dá um pulo de susto um carro que avança o sinal velozmente e bate em uma árvore do outro lado da avenida.

Bem feito pensa André, e continua seus passos em direção da garagem, enquanto outros para ver o acidente e os policiais correndo em direção ao carro acidentado. Seu carro estava molhado pela chuva, ele sai tranquilamente com ele, mas pela janela vê a menina de cabelos avermelhados o observando, de alguma forma seu olhar o incomoda.

No trajeto para sua casa na rua dos Oitis na Gávea ele enfrenta um grande engarrafamento. Demora uma hora além do tempo normal para chegar em casa. Ao chegar finalmente em casa encontra seu filho na sala aos beijos no sofá com Haneda, uma moça oriental que estranhamente seu filho a chama pelo sobrenome, vendo a cena ele avança para cozinha tentando não chamar atenção.

_ Sexta-feira... Tomara que não fique com dor de cotovelo por causa do meu próprio filho. - Diz André antes de beber um copo d'agua e que ao terminar vai a direção ao seu quarto.

Espera terminar de ler "O corti¿o" de Aluísio de azevedo, ainda hoje. Isso faz parte de uma decisão que tomou de ler todos os clássicos da literatura brasileira em um ano, pois nuca lera nenhum quando jovem.

Mas como fez faculdade na Alemanha e gostava de aventuras na juventude nunca se importou com literatura decidiu então compensar isso ao completar quarenta anos.

O mundo era mais emocionante e fazia mais sentido quando havia o muro de Berlim, pensa enquanto senta-se na poltrona para enfim ler seu primeiro livro dos clássicos da literatura brasileira, seus tempos de aventura em Berlim oriental com Helga que deu origem a seu filho e a um casamento de sete anos. Helga agora trabalha como funcionária pública em Berlin já unificada. Sua segunda esposa de um casamento de cinco anos mora com sua filha em Belo Horizonte, a menina de vez em quando o telefona. Para dizer como vão as coisas e de Ricardo seu padastro. Causa um certo riso inconsciente: com tantos homens por que logo um chamado Ricardo?

André começa logo a ler o livro antes que comece a ser nostálgico. A chuva se intensifica e o barulho dela vira música de fundo do livro.

Duas horas da manhã André acorda, acabou dormindo na poltrona, sai do quarto e desce para a cozinha comer alguma coisa, ao passar pelo quarto de seu filho ouve um ronco sinal de que as coisa já esfriaram.

Ao chegar na cozinha ele se deparar com uma menina estranha sentada na mesa da cozinha.

_ Como entrou aqui?
_ Eu sou Auia.
_ Não me importa quem seja como entrou na minha casa.
_ Por isso mesmo; eu sou Auia, que parte não entendeu?

André lembra de ter visto esta menina na rua, aparenta ter uns dez anos com pele parda e cabelos longos avermelhados. Mas talvez ela faça parte de um grupo de assaltantes que agora está invadindo sua casa, automaticamente ele vira-se e corre para o telefone. Mas tudo fica escuro e ele tem uma última sensação de que caiu no chão.